Não julgue um job pela capa
 Publicado: 07/12/2016 Atualizado: 12/12/2016

Não julgue um job pela capa

Alguns trabalhos podem não ser financeiramente muito interessantes, mas recompensam com atributos tão legais quanto dinheiro: prestigio!
  Por Thiago Neumann
Um sneak peek da ilustração Mother Island. Veja abaixo a arte completa.

Me apaixonar e não subestimar qualquer projeto, por mais simples que pareça a sua finalidade, sempre foram características que portei intuitivamente. Sempre busco me apaixonar pelo tema antes de iniciar o trabalho. Lidar com isso às vezes é meio doloroso, mas preciso dessa motivação.

Dentre todos os meus trabalhos e projetos pessoais, um bom exemplo que posso apontar é o da Mother Island de 2012. Este trabalho nasceu como proposta de identidade para um simples evento, o XII Encontro Regional de Agroecologia (uma iniciativa regional para estudantes).

ilustracao-mother-island-por-thiago-neumann

Hoje confesso que a ilustração tecnicamente me desconforta em alguns pontos, assim como vários dos meus trabalhos anteriores, o que é bastante comum para desenhistas e ilustradores. Depois de um tempo, você passa a observar mais as imperfeições e começa a pensar em como hoje faria diferente. Mesmo assim, ainda gosto bastante do conceito e de como a imagem representou bem o tema: “terra não é fonte de lucro”.

Depositei toda a minha energia durante a execução do trabalho. Dei o meu melhor sem pensar na finalidade da peça ou no retorno financeiro que teria.

O fato de trabalhar no projeto com toda a minha energia, como se fosse o único, não era uma ideia consciente, identifiquei isso em mim recentemente. Sempre tenho a sensação de que é minha última chance, a última oportunidade de contar alguma história. Porém, sentir isso nem sempre é muito confortável. Mas venho lidando melhor com essa “coisa” agora que tenho consciência dela.

Voltando ao evento. Foram confeccionados cartazes e as demais peças que compõem a divulgação de um congresso. Montei uma apresentação do projeto, para postar no Behance, mostrando o processo criativo e a partir daí o escoamento dela começou.

A Mother Island tomou seus próprios mares, escoando pelas vias que lhe cabiam, trazendo visibilidade, solicitações de trabalho de diferentes lugares, comentários emotivos, influenciando outros artistas e inspirando pessoas.

Uma das surpresas mais interessantes que tive aconteceu em uma busca rápida no Google, me deparei com o trabalho do artista John “Darkmessiah” Harrison, que utilizou o desenho como referência para escultura que ele fez para presentear a mãe.

escultura-mother-island

Outra surpresa foi a citação na página do ator Joseph Gordon-Levitt.

Também através das fisgadas da Mother Island, fui convidado pelo Liliya Omelyanenko e Eliash Strongowski para contribuir com uma ação belíssima, a Dobra Lystivka (cartão amável). A ilustração contribuiu angariando fundos com a venda exclusiva de cartões feitos por designers e artistas internacionais. Todo o lucro foi revertido para programas de reabilitação de crianças deficientes na Ucrânia.

E ainda, recentemente ingressei no Wally App e a Mother Island está sendo indicada como um dos papéis de parede mais baixados do acervo. Volta e meio recebo notificações de repostagens da ilustração por contas no Instagram, Facebook ou menções de pessoas que a tatuaram.

 

A photo posted by Zac Kinder (@zackindertattoos) on

Também encontrei a ilustração sendo pirateada em capinhas de celular vendidas no eBay e AliExpress com direito a citação e tudo.

capa-de-celular-com-a-ilustracao-mother-island-de-thiago-neumann

Confesso que hoje tenho uma relação com essa ilustração semelhante à que o Los Hermanos têm com “Anna Julia” (risos). É o hitzinho que você não tem como escapar.

Porém, não subestimar qualquer trabalho deixou de ser apenas intuitivo e passou a ser muito justificável, passou a ser uma diretriz que precisa ser bem administrada emocionalmente.

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Publicado por:
Thiago Neumann
Ilustrador e designer gráfico, experiência com personagens e cenários para games, publicidade, editorial, estampas e afins. Costumo trabalhar com vários signos em uma mesma ilustração e propor uma narrativa mais densa, onde a imagem possa entreter ao máximo o expectador. Sou apaixonado pelo meu ofício e me apaixonar pelos projetos, para trabalhar com máxima dedicação, é um combustível fundamental. Visite meu Behance.

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Participe da Conversa
  • Incrível, Thiago!

    Texto muito inspirador, cara. Eu sempre me pego pensando sobre alguns jobs: “pq vou pegar esse trabalho, não vai me levar a lugar algum”. Às vezes a oportunidade tá além do que a gente pode ver.

    Muito obrigado pela colaboração, meu velho! E parabéns pelo trabalho, sou teu fã!

    Abraço!

    • thiago neumann

      Muito obrigado também!

  • Cara, que artigo incrível, que trabalho incrível!

    Acho que mais importante que a evolução da sua técnica está a dedicação e carinho que transparecem na essência do seu trabalho. Isso sim tem valor, não é à toa que o projeto tomou tais proporções.

    Tiago, não enxergue esse projeto como um hit que você não tem como escapar, mas como um marco, um divisor de águas do qual só se deve ter orgulho.

    E uma curiosidade. Comecei a ler o artigo muito mais por conta da capa do que por conta do título. Achei que o título fazia relação conceitual com a imagem, não sei se foi intencional. Como quem dissesse “Por cima das águas, onde consigo enxergar, existe uma bela ilha – mas isolada, distante, no meio do nada. Mas por baixo há uma bela baleia trazendo vida e movimento à ilha.” Daí o título “Não julgue o livro pela capa”.

    Viajei? (rs)

    Abração Thiago e parabéns @henriquepcm:disqus, mandou bem.

    • Belo complemento, Waltinho, meu caro.

      Muito boa tua percepção em relação a capa e o título. Eu editei as imagens e confesso que não foi intencional. Curioso como mentes criativas conseguem criar essas conexões. Muito bom!

      Grande abraço e obrigado por participar e por compartilhar o artigo também. =)

    • thiago neumann

      Fala Walter, que honra, pelo visto o prestígio não para, né? haha você aqui!! hahaha
      de fato, não vejo como um hit, é mais pela piada, mas confesso que me provoca várias reflexões.
      E gostei muito da sua leitura, é um poeta…haha…essas coisas e que tornam a coisa toda viva.

      grande Abraço @waltermattos:disqus

      • Me surpreende você ficar honrado, cara. A honra é toda minha! :D
        É muito bom quando conheço outros profissionais que passam pelas mesmas reflexões que eu. Acho que é um processo importante e essencial pro amadurecimento.
        Valeu, Thiago. Parabéns mais uma vez, cara!
        Abração.

  • Iure Figueira

    Esse certamente vai para aquela caixinha de artigos que é bom ler sempre.

    Cultivar esse tipo de sentimento sobre o que produzimos é mais do que fundamental e a gente só percebe quando fica de frente a uma situação dessas.

    Qualquer trabalho que tenha empenho, estudo e coração envolvido gera – além do Capitão Planeta – uma sensibilidade crucial para se certificar da entrega e manutenção de qualquer projeto. Chega a ser uma questão de respeito com o que está produzindo e para quem está sendo produzido.

    Excelente texto pessoal!

    • Boa, Iure! Sempre presente e sempre sagaz. Vai planeta!

      Grande abraço!

    • Em tempo… muito boa essa parte:

      Chega a ser uma questão de respeito com o que está produzindo e para quem está sendo produzido.

  • Rogério Torres

    Você sabe que sou fã da Mother Island desde que ela nasceu, né? Mandou bem na ilustra e agora no texto, Thiagão! Henrique Pochmann, obrigado por compartilhar. ;)

    • Fico feliz que tenha curtido, Rogério! Obrigado pelo comentário, meu amigo. Abraço!

  • Muito legal o artigo e a sua experiência Thiago! Eu sempre lembro de algo que eu li, não sei onde e não sei de quem :p “Se você acha o problema chato, só vai encontrar solução chata”. É isso né? A gente tem que “curtir o problema” – no caso, a necessidade do cliente, e partir pra uma solução legal independente de qq coisa.

    E LINDA demais a ilustração… Ah esses designers e suas neuras :p Não consigo ver um único defeito. Mas entendo você :)

    • “Se você acha o problema chato, só vai encontrar solução chata”.

      Muito verdade. Acho que a gente acaba se contaminando. Tu fica repetindo na cabeça pra ti mesmo, que trabalho chato, que trabalho chato…

      Sempre tento respirar fundo e tentar manter uma atitude positiva em relação ao problema. Assim o job fica mais leve e as soluções acabam surgindo de uma forma mais prazerosa.

  • João Carlos Avarones

    Esse artigo caiu em boa hora. Vendo o trabalho incrível que você fez para algo de “menor valor” por assim dizer, me deu uma visão diferente do que eu estou me habituando a fazer.

    Neste exato momento estou fazendo alguns trabalhos em 3D para uma empresa que não paga muito bem, mas também nao exige muito do resultado final, então não estava dando o meu melhor e nem me puxando para os limites.

    A questão é que cada trabalho é um novo desafio e talvez esteja ali a oportunidade de aprender, adquirir experiencia, e entregar um trabalho excepcional.

    Obrigado pelo artigo, obrigado pelas palavras!

    • thiago neumann

      Opa João, que bacana que o texto tenha te tocado nesse sentido, legal que perceba assim.

    • É complicado. Em alguns casos, principalmente na vida de agência, é comum termos que resolver um job de um jeito mais “feijão com arroz” pra poder focar o resto da energia em outro trabalho mais importante. Acho que nem sempre vamos poder dar o melhor em todos os trabalhos… mas, quando tivermos essa oportunidade em mãos, por que não fazer?

      Abraço, João! Obrigado por participar.

      • João Carlos Avarones

        É algo assim, mas neste caso a questão é a desmotivação financeira. É aquele momento em que nós precisamos “baixamos a guarda”, pois o mercado encolheu bastante e as oportunidades que eram plenas estão escassas, então acabamos pegando alguns trabalhos menores para manter o fluxo. Falo no plural pois tenho vários colegas na situação parecida.

        Por isso, um texto que nos lembra do motivo de estarmos fazendo nosso trabalho, vem à calhar num momento destes.

        Eu que agradeço pela “abertura de mente” recebida por este artigo. Abraços!

  • Pessoal, lendo o texto do Thiago Neumann, lembrei-me de um texto que escrevi e que tem como título: Ser ou não ser designer, eis a questão. Boa leitura a quem se interessar e um abraço a todos! Obrigado pelo espaço Henrique.
    https://www.linkedin.com/pulse/ser-ou-nao-designer-eis-questao-rogerio-torres

    • Belo texto, Rogério!

      Um relato sincero e sem rodeios. Acho que retrata muito bem como é trabalhar não só com design, mas com várias outras especialidades da área da comunicação. Vale muito a leitura, principalmente, para quem tá começando ou ainda em dúvida quanto a área.

      Obrigado por contribuir! Grande abraço!

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